Tecnologia da informação e Sistema Braille: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa?

Lucy Gruenwald e Cristiana Cerchiari - Out/2015

O ano de 1825 é considerado um marco para as pessoas cegas: o jovem Louis Braille criou um sistema de escrita e leitura em que os caracteres – letras, números, sinais de pontuação, etc. – são formados por no máximo seis pontos. Era o Sistema Braille, que até hoje é usado por cegos do mundo todo, com pequenas variações, dependendo do idioma. Na língua portuguesa, por exemplo, usamos a letra A com crase (ver documento  Grafia Braille para língua Portuguesa [1] do Ministério da Educação).

Como o Sistema Braille foi criado há quase 200 anos, novas áreas do conhecimento foram surgindo, e com elas novos símbolos. Assim, existem códigos braille para as áreas da música, matemática, física, química e informática.

 

Escrevendo em braille:

Para escrever em braille, ou seja, para “criar” os pontos em alto relevo, podemos “furar” o papel mecânica ou manualmente. Para marcar um ponto de cada vez, utilizamos uma espécie de régua (chamada reglete) e uma espécie de agulha (chamada punção). Para escrever até seis pontos por vez, utiliza-se a máquina Perkins. Perkins é o nome de uma escola para cegos que fabrica essa máquina. Cada instrumento tem suas vantagens e desvantagens, que não cabe analisar aqui.

Outro recurso que permite a escrita braille mecânica é o uso de impressoras braille. Hoje, várias marcas e softwares específicos para impressão braile podem ser encontrados no mercado. Existem impressoras que utilizam formulário continuo e outras que possibilitam o uso de  folhas soltas. Dependendo da impressora, é possível imprimir  dos dois lados do papel.

 

O braille concorrendo com as tecnologias:

Com a popularização dos gravadores em fita cassete, na década de 60, muitos cegos passaram a complementar a escrita e leitura braille com a “anotação” e “leitura” por gravadores. Assim, escrever passou a ter dois significados: “furar” pontos braille e apertar o botão rec para gravar. O verbo ler adquiriu também dois sentidos: decodificar pontos em alto relevo e pressionar o botão play para ouvir a gravação. Essa dupla significação da leitura e escrita ainda persiste.  

A partir da década de 90, surgem as vozes sintetizadas (produção artificial de voz humana), e com elas os softwares, conhecidos como leitores de tela, que permitem às pessoas cegas ler e interagir com o computador.

A tecnologia de voz, aliada ao formato DAISY que surgiu nessa época ( formato próprio para  armazenamento e leitura de livros  digitais  com as vozes sintetizadas), popularizaram ainda mais o uso do computador  por pessoas com deficiência visual.

Com toda essa concorrência, (e para desespero das professoras!), jovens cegos ficaram cada vez menos motivados em aprender e usar o braille, já que, ouvir um texto através da sintetização de voz pareceu mais prático e atraente para os jovens cada vez mais acostumados com o uso do computador.

Além disso, para se adquirir velocidade na leitura braille é preciso contato diário, prática e sensibilidade tátil muito aguçada, o que se adquire desenvolvendo a coordenação motora fina.  Outro inconveniente é que um livro na versão braille pode ser muito volumoso: um dicionário de bolso, por exemplo, pode resultar em outros 17 volumes, quando transcrito para o braille.

É verdade também, que nunca foi tão fácil transcrever conteúdos para o braille, usando  as impressoras braile e encadernando as folhas em pequenos volumes. No entanto, os financiamentos para publicações nesse sistema são escassos, dificultando o acesso às pessoas cegas. Faz-se necessária, portanto, a criação de um programa nacional de incentivo à leitura em braille, aliada à boa vontade das pessoas em aprendê-lo.

 

Braille em tempo real:

A reglete, a máquina Perkins e a impressora braille prestam serviços inestimáveis, mas têm o inconveniente de produzir braille “congelado no tempo”, ou seja, braille que, uma vez posto no papel, deixa margem mínima a alterações e revisões. Para resolver esse problema, foram inventados equipamentos que produzem braille renovável em tempo real. É a geração de “dispositivos eletrônicos braille”, composta por linhas braille, notetakers  e teclados braille virtuais em equipamentos móveis.

a) Linha braille:

Figura 1: Linha braile

Também conhecida como display braille, a linha braille se conecta a um computador e/ou celular, permitindoque o usuário leia e/ou escreva em alto relevo. O dispositivo possui pinos que sobem e descem reproduzindo os caracteres em braille do texto que está visível na tela.

Alguns equipamentos contém teclas para entrada de dados em braille, dispostas da mesma forma que nas máquinas Perkins, e alguns botões adicionais que agilizam a leitura, escrita e navegação, e possibilitam que o usuário dispense completamente o uso do teclado (físico ou virtual) ou mouses tradicionais, e até o próprio leitor de tela.

Existem no mercado linhas braille de diferentes tamanhos, isto é, que reproduzem 14, 20, 32, 40 ou 80 caracteres. Cada uma tem seus próprios menus de configuração. As linhas maiores, de 80 caracteres, são indicadas para leitura e revisão de textos, e para programação de softwares. As de 40 caracteres são indicadas para leitura de textos e uso com computadores, celulares e tablets.  As menores (20 ou menos caracteres) são mais indicadas para leitura de informações do celular.

 

Figura 2: Linha braile acoplada a um iPad

As linhas braille são conectadas ao computador e/ou celular através de bluetooth ou entrada USB. O usuário pode receber as informações através de um leitor de tela (NVDA, Jaws, Voiceover , Talk Back, etc.),  e/ou pela linha braille. Isso significa que podem optar por uma leitura “barulhenta” ou silenciosa. Alguns displays braille possuem recursos para o usuário obter informações quanto à formatação do texto, isto é, se ele está em negrito, itálico ou sublinhado.

Esses equipamentos são especialmente úteis para pessoas surdocegas, que podem superar a ausência ou dificuldade de audição e visão através do tato.

 

b) Notetakers:

 

Figura 3: notetaker - linha braile e teclado tipo Perkins

São dispositivos semelhantes às linhas braille, com a diferença de que podem ser usados de forma independente sem precisar conectá-los a um computador ou outro dispositivo (como celulares ou tablets), e de que nem sempre exibem caracteres em braille. Alguns têm apenas sintetizador de voz para ler o conteúdo da tela. Todos, obviamente, permitem a digitação de informações.

Em geral, os notetakers são menores que as linhas braille e, portanto mais fáceis de transportar. Geralmente contam com um grande espaço de armazenamento ( 32 GB ou mais) contendo diversos aplicativos embutidos, como Word, Excel, Dropbox, etc. Alguns permitem conexão   Wi-Fi  e bluetooth.

As versões mais simples e mais baratas, podem ser ferramentas interessantes para anotações em aulas ou para aprender o braille, sem a necessidade do uso de papel de gramatura maior, e com redução de ruído, se comparados às máquinas Perkins.  

Quem enxerga e não sabe ler Braille também pode acompanhar o que as pessoas cegas estão escrevendo. Existem notetakers com um pequeno visor. Também é possível acoplar os notetakers a monitores maiores, que exibem letras ampliadas.

 

c) Teclado virtual braille no smartphone

 

Figura 4: tela virtual de um iPhone com  os 6 pontos braile. 

Outra opção de tecnologia que está fazendo muito sucesso entre os usuários que dominam  a escrita  braille e que usam  equipamentos móveis é o teclado virtual  braille.

Existem aplicativos (app) dedicados a isto, ou seja, apresentam na tela touch os pontos braille e o usuário pode então escrever textos  em braille como se estivesse “furando” os pontos na máquina Perkins ou  na reglete.

No sistema da Apple IOS 8 (para Iphone e Ipad) o recurso de teclado virtual braille  já vem embutido no sistema , o que significa que o usuário pode optar por digitar no teclado virtual tradicional  ( QWERTY) ou em braille  em qualquer lugar onde é necessário entrar com informações, quer seja para  preencher campos de formulários, escrever textos , e-mails e  senhas; assim como  navegar na web ou através de  apps  instaladas,  e tudo isso sem  precisar entrar e sair de um aplicativo.

Antes disso, as pessoas cegas só conseguiam escrever em braile se baixassem aplicativos específicos para esse fim. Alguns exemplos: Braille Writer, Braille Touch e MBraille. Estes podem ser também recursos interessantes para pessoas com e sem deficiência visual aprenderem esse código. Alguns aplicativos são pagos e outros gratuitos.

A disponibilização do teclado virtual braile têm proporcionado às pessoas cegas a capacidade de interagir de maneira mais fácil e rápida com os equipamentos móveis.

Para saber mais sobre os modos de escrita nos produtos da Apple leia o artigo “Escrevendo de forma eficiente e produtiva no iOS “ [2]

 

Novas tecnologias relacionadas ao braille: custos e benefícios

 

Benefícios. Os novos recursos tecnológicos estão impulsionando ainda mais o acesso e a democratização do Sistema Braille, tornando os dispositivos móveis ainda mais amigáveis às pessoas cegas e surdocegas. O mercado oferece vários modelos, opções e funcionalidades.

Custos. Vale notar que as opções de hardware (linha braille ou notetaker) são em geral tecnologias muito caras (variam de $1.000,00 a $ 8.000,00). Portanto, antes de adquiri-los é importante pesquisar na Internet, avaliar  bem suas necessidades individuais. Sugerimos as seguintes perguntas norteadoras: Que tipo de tarefas pretendo executar: anotar aulas, treinar/ensinar braille, ler livros? Preciso mesmo de uma conexão Wi-Fi/3G/4G? Quantas células eu preciso sob meus dedos? Portabilidade é essencial? Quero ler informações em braile ou prefiro ler apenas com síntese de voz? Melhor teclado tradicional QWERTY ou Perkins? O equipamento conta com assistência técnica no Brasil? E com conexão Bluetooth? Tem conexão USB e/ou cartão de memória?

 

Benefícios: Louis Braille inventou, no século XIX, um sistema tão inovador que, mesmo sem ele o saber, molda-se às necessidades da Era da Informação, unindo-se a dispositivos de todos os tipos para proporcionar mais informação principalmente às pessoas cegas e surdocegas, sendo impresso em embalagens de remédios, elevadores, corrimões de estabelecimentos comerciais, placas indicativas, cardápios, etc.

Sob uma perspectiva individual, utilizar o Sistema Braille para ler e escrever possibilita, no caso das pessoas cegas, a criação/manutenção do hábito da leitura silenciosa, aumenta a concentração no texto lido, ativa áreas específicas do córtex cerebral, reflete em uma melhor ortografia e amplia a compreensão do uso de sinais de pontuação e de eventuais estrangeirismos e jogos de palavras. Imprimir à leitura seu próprio ritmo e interpretação, sem a voz sintética, pode ser muito mais agradável e gratificante.

Placar final: 2 x 1. Vitória dos benefícios!

Para mais informações e sugestões de vídeos demonstrativos dos equipamentos apresentados entre em contato conosco no contato@lbgacessibilidade.com.br.

 

 

 

 

 

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