Multimídia na web e a acessibilidade

Por Lucy Gruenwald 2005

O movimento de multimídia na Web começou realmente em 1996. Partimos de textos simples para imagens estáticas e então para os áudios, vídeos e animações.

À medida que a largura da banda, usada para transmitir conteúdo Web, aumenta e que, as ferramentas para criar e publicar mídia na Internet se tornam mais populares, estes elementos de  animação, vídeo, som e outras formas de interação estão sendo cada vez mais encontrados em websites, principalmente naqueles que trabalham com notícias, entretenimentos e educação a distância.

Porém, do mesmo modo que os elementos de multimídia podem enriquecer uma página  web, eles podem se transformar em obstáculos formidáveis para pessoas com deficiência  visual, auditiva, motora ou intelectual se não forem integrados aos sites de maneira acessível.

O problema da acessibilidade é simples: o surdo não pode ouvir o áudio e o cego não pode ver o vídeo.

Em um primeiro momento podemos pensar que o melhor a fazer, para produzirmos sites acessíveis, é abrir mão destes recursos, certo? Não, errado!!!

O interessante é que, em muitos casos, o meio de se alcançar a acessibilidade é justamente incluindo mais mídia! O segredo é usar várias opções e formatos diferentes para apresentar uma mesma informação, deste modo o usuário não fica limitado à sua capacidade sensorial para ter acesso aos elementos dos sites.

Usada do modo certo, a multimídia é um recurso excelente de acessibilidade na Web, além disso muitas vezes acontece  que  ao incluirmos soluções alternativas para resolvermos um determinado problema de acessibilidade estaremos automaticamente resolvendo outros problemas de acessibilidade para diferentes usuários.

Para exemplificar o que colocamos acima, vamos analisar algumas mídias em relação à acessibilidade:

Animação

Basicamente uma animação é uma série de imagens estáticas, que ao serem apresentadas uma após  outra dão a impressão de movimento.

Animações têm sido usadas nas páginas Web, muitas vezes como um fator estético ou para atrair a atenção do usuário para uma propaganda, mas podem ser também um excelente instrumento para enriquecer aulas presenciais ou a distância. Podemos usar animações para descrever processos como, por exemplo, uma fotossíntese em uma aula de biologia, o nascimento do Universo em uma aula de física, ou ainda descrever processos em cursos profissionalizantes (como instalar uma torneira, como fazer uma instalação elétrica, como preparar pratos especiais etc.), através de animações a matéria pode ser melhor compreendida.

Animações podem servir  também como um recurso para auxiliar pessoas com dificuldade de leitura ou de entendimento.

Alunos com deficiência motora, muitas vezes, encontram grandes barreiras para participar de aulas de laboratórios, e se incluirmos nestas aulas animações interativas que simulam as experiências de laboratório estaremos proporcionando a inclusão destes alunos.

Porém, como se trata de um processo visual, as animações podem constituir uma grande barreira para quem não as pode ver, pois as tecnologias assistivas ( como por exemplo: leitores de telas) usadas por pessoas com  deficiência visual, ainda não estão aptas a interagir facilmente com as animações e,  assim como na questão das imagens,  não é possível automaticamente descrever o conteúdo da animação para os usuários.

E então, como ficamos? Se desistirmos do uso de animações nas páginas Web por causa dos usuários com problemas visuais, estaremos deixando de utilizar um recurso muito útil para outros usuários, inclusive os com outras deficiências, o que não seria muito justo.

Para resolvermos essa questão, uma solução alternativa simples é a de criar um texto explicativo e disponibilizá-lo na página Web através de um link próximo à animação.

Este texto explicativo além de ser útil às pessoas com deficiência visual poderá auxiliar ainda mais as pessoas com dificuldade de entendimento, pois elas terão disponíveis duas soluções alternativas ( a animação em si e o texto)  para utilizar  segundo suas necessidades.

Animações podem ser complexas e demorar a serem apresentadas na tela do usuário, especialmente para aqueles que não possuem conexão rápida com a Internet. Nestes casos, os usuários optam muitas vezes por não permitir a carga da animação em seu computador. Porém, se existir um texto alternativo ele poderá conhecer o conteúdo da animação previamente e decidir se deseja ou não carregá-la em seu computador.

Para animações que não transmitam informações relevantes, como aquelas criadas somente para capturar a atenção do usuário, ou com função estética não é preciso produzir textos alternativos.

SOM

Não podemos ignorar o apelo que o som e a música têm na nossa cultura onde as pessoas passam várias horas do dia assistindo TV e ouvindo música ou rádio.

O uso de som e da música está crescendo rapidamente na Web. Alguns sites são constituídos basicamente de musicas outros transmitem conteúdo de som ao vivo ou previamente gravado, semelhantes às transmissões de rádios.

Com a largura de banda aumentando na Internet e com os computadores melhorando a sua reprodução do som, vamos ver mais vozes e musica na Web.

Vozes e sons podem muitas vezes complementar a comunicação de informações passadas via texto ou imagens.

Muitos sites já fazem uso dos populares podcasts, isto é, transmitem arquivos de som automaticamente, no formato digital, para o computador  do usuário utilizando um programa especial chamado agregador.

Conteúdos sonoros podem também ser transformados em arquivos de formato MP3 e transferidos para iPods ou tocadores  MP3, deste modo, o usuário pode ouvir estes conteúdos em qualquer lugar e não somente no seu computador.  Esta forma de apresentar conteúdo tem sido um recurso fantástico para que pessoas com deficiências possam “ler” livros ou acompanhar aulas gravadas  em lugares em que normalmente um computador não está disponível como, por exemplo, em lugares públicos como metro, ônibus, parques  ou mesmo confortavelmente na sua cama !!

Porém, com o surgimento da mídia sonora na web , muitas das pessoas com dificuldade de audição que até então, não tinham barreiras no uso da Web estão passando a tê-las!!

A solução simples, neste caso, é também criar links alternativos com a transcrição do conteúdo de som.

Um conteúdo sonoro pode ser transcrito manualmente ou automaticamente fazendo-se  uso de ferramentas de softwares que estão surgindo no mercado.

Neste caso, também temos uma solução para um problema que pode auxiliar na solução de outro. Os arquivos textos podem ser usados por pessoas que não entendem perfeitamente o idioma falado, por aquelas que por algum motivo não possuam ou não possam usar o sistema de som do computador ( exemplo: uso em lugares públicos), ou que desabilitam a carga de arquivos grandes (como os de som) por uma questão de conexão lenta.

Arquivos de som podem ainda enriquecer aulas presenciais ou a distância e seus textos transcritos podem servir como material de apoio para qualquer aluno fazer anotações.

Quando o arquivo de som é disponibilizado sem um conteúdo de vídeo associado, a transcrição não precisa ser apresentada em sincronia com a fala do locutor.

Vídeos

Os vídeos, como no caso das animações, são constituídos de uma serie de imagens apresentadas rapidamente e que dão a sensação de movimento. Trilhas sonoras geralmente acompanham, sincronamente, estas imagens.

Arquivos de vídeos e a Internet nunca foram feitos um para o outro, pois são ainda maiores do que os arquivos de som e, para transmiti-los, via Web, é preciso fazer uma grande redução de seu tamanho, muitas vezes comprometendo a sua qualidade.

Com o aparecimento de softwares que fazem a compactação destes arquivos de maneira inteligente, ou seja, que reduzem o seu tamanho, mas conseguem ainda manter uma qualidade aceitável; com a disponibilidade de banda larga; com ferramentas que permitem criá-los facilmente sem necessidade de instalações especiais;  e com sites oferecendo uma plataforma para que qualquer pessoa possa disponibilizá-los (exemplo: Youtube),  o aparecimento  desta mídia vem “explodindo” na Web.

O problema, como dissemos antes, é que eles constituem uma barreira enorme para pessoas que não podem ver as imagens e para as que não podem escutar o som, sem falar na dificuldade de “pilotá-las”, ou seja, fazê-las parar, avançar ou pausar.

Para resolvermos estes problemas temos como alternativas: incluir legendas e captions para os usuários com deficiências auditivas e incluir áudio-descrição para os usuários com deficiências visuais.

A legenda é o texto sincronizado com o vídeo. Ela é gravada em uma trilha separada e que é disponibilizada na web juntamente com o vídeo. Os navegadores , através dos respectivos players(5)  ( programas usados no computador do usuário), são responsáveis para fazer a apresentação simultânea da imagem, do som e da legenda (ou caption)  e da áudio- descrição.

Closed Captions é um tipo particular de legenda. A legenda assume que a pessoa que está assistindo o vídeo pode ouvir mas não pode entender a linguagem falada,  já  o objetivo dos captions é descrever todo o significado do conteúdo do áudio e também informar quem está falando e acsua maneira de se expressar.

Música e efeitos de som são representados no closed captions  por palavras e  símbolos (exemplo :  sinal de um sino ou de uma campainha). Neste caso,  as palavras e os sons se movem na tela no ritmo da trilha sonora e tem-se a identificação da pessoa que está falando ou produzindo o som.  Acoplando closed captions aos vídeos, pessoas com deficiência auditiva podem acompanhar o que está sendo apresentado em todos os seus detalhes.

Para aqueles com dificuldades visuais, a áudio-descrição pode ser adicionada aos vídeos permitindo que estas pessoas tenham acesso ao seu conteúdo. Este recurso constitui-se de uma segunda trilha com curtas narrativas onde pode-se explicar o que está acontecendo quando aparecem espaços sem som.

Alem de adaptar o vídeo para aqueles que não podem ver a áudio-descrição pode ser um excelente recurso para aqueles que têm dificuldade de entendimento.

Conclusão:

No momento, o maior problema  para o uso da multimídia, é que, a infraestrutura da web que dá apoio a estes elementos  é ainda um pouco confusa: existem vários formatos de diferentes fabricantes  para se comprimir  arquivos de som e imagem, vários players  que “descomprimem” os arquivos para serem apresentados no computador do usuário e ainda navegadores que disponibilizam estes recursos de formas diferentes. E, como se não bastasse, em relação acessibilidade especificamente, players diferentes possuem versões diferentes, com capacidades diferentes, incompatíveis em vários graus com as tecnologias assistivas que dão apoio aos usuários com deficiência como, por exemplo, os softwares leitores de tela.  

Mas como mostra a História da Informática e particularmente a da Web, é tudo uma questão de tempo para que padrões sejam criados e tecnologias se “acomodem”, a partir daí a multimídia bem usada irá abrir um espaço de inclusão como nunca imaginado.

Hoje, já existem vários recursos no mercado para a produção de animações “caseiras” e sua limitação é mais uma questão de criatividade de quem as produz do que uma questão de tecnologia.

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