Tecnologias Assistivas no Ambiente Coorporativo

Por Lucy Gruenwald março/2009

É desnecessário comentar sobre a importância e a abrangência do uso da tecnologia da informação no ambiente corporativo. O conhecimento e a habilidade no uso de computadores são, cada vez mais, pré-requisitos na seleção de candidatos às vagas de trabalho.

Profissionais de praticamente todas as áreas fazem uso do computador, tanto para executar suas tarefas diárias, como também para se comunicar e pesquisar informações através da Internet e Intranet . Evidentemente, a pessoa com deficiência não pode ficar à margem desta realidade, se quiser competir com os seus pares.

Não se pode esquecer também que, devido a uma doença ou acidente, qualquer profissional pode, a qualquer momento, adquirir uma deficiência, seja ela momentânea ou permanente, e vir a necessitar de uma acomodação no seu ambiente de trabalho.

As tecnologias denominadas assistivas ou adaptativas são recursos utilizados para reduzir as desvantagens na interação das pessoas com deficiência com o ambiente, aumentando sua autonomia. Particularmente, as tecnologias que permitem a interação com o computador têm trazido um enorme benefício na vida desses indivíduos.

Prover tecnologias assistivas no ambiente de trabalho está intimamente ligado às funções a serem exercidas pelo profissional na empresa. Se a pessoa tem uma deficiência que não interfere no seu trabalho, não é preciso esforço para acomodá-la. Caso contrário, o uso de uma tecnologia bem adequada às suas necessidades pode trazer um grande ganho de produtividade e de autonomia, tanto para a pessoa com deficiência quanto para a empresa.

A pessoa que necessita uma acomodação no seu ambiente de trabalho pode, ou não, estar habilitada para lidar com a tecnologia assistiva disponível na empresa. Isto depende de fatores como exposição prévia a essa tecnologia, complexidade da sua utilização e grau de autonomia propiciado por ela ao usuário.

A pessoa com deficiência pode, até mesmo, nem ter conhecimento da existência da tecnologia mais adequada às suas necessidades. Por estas e outras razões, é recomendável que a empresa, ao adquirir uma determinada tecnologia assistiva, planeje também treinamento e capacitação no seu uso, se a tecnologia assim o exigir.

Outro aspecto importante a ser considerado é o envolvimento da área de TI (tecnologia da informação) nesta dinâmica, pois assim como é de sua responsabilidade a administração dos computadores e programas em geral, ela também deve ser responsabilizada pela instalação e manutenção das tecnologias assistivas adquiridas.

A seguir, são apresentadas algumas tecnologias que podem ser incorporadas no ambiente de trabalho para aumentar a produtividade e a autonomia da pessoa com deficiência e incluí-la efetivamente na sociedade. Vale ressaltar que nada disso substitui o conhecimento do perfil profissional da pessoa que vai utilizar essa tecnologia assistiva.

Sugestões de tecnologias para o uso de pessoas com deficiência no ambiente de trabalho

O Decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999 define quem pode ser considerado pessoa com deficiência. Existem no mercado algumas tecnologias próprias para cada caso. Todas tentam resolver um problema básico: a dificuldade de acesso à informação. Cada uma, porém, é adequada a uma determinada situação.

A seguir tecemos considerações sobre algumas peculiaridades das tecnologias mais conhecidas, bem como do treinamento e suporte necessários.

1 - Tecnologias assistivas para pessoas com deficiência visual

Estão incluídas nesse grupo pessoas com deficiência total de visão, com baixa visão (visão subnormal), daltônicos, entre outros.

1.1 - Leitores de Tela

São programas que utilizam recursos de síntese de voz para ler o que está escrito na tela. Utilizam a placa e as caixas de som do computador para vocalizar as informações.

Geralmente são usados por pessoas cegas, mas podem ser um bom recurso para pessoas que têm dificuldade de leitura como, por exemplo, pessoas dislexas.

Leitores de tela são produtos sofisticados, já que precisam comunicar aspectos diferentes das informações na tela. Identificam componentes da tela (caixas de diálogo, menus, campos de diversos formatos, cabeçalhos, hipertextos, etc.), diversas características de formatação de texto (cores, tamanhos e tipos de fonte, presença de notas de rodapé, etc.), além de ter seu próprio painel de controle (que permite configurar o idioma, a velocidade, o timbre e outras características da voz e de outros componentes do programa).

São softwares que oferecem amplo acesso ao computador. Com exceção de páginas web pobremente desenhadas (às quais o usuário não tem controle), e de softwares que oferecem alternativas restritas de navegação com o teclado, os leitores têm controle extenso sobre o ambiente do computador e sobre as aplicações mais populares como, por exemplo, o pacote Office (Word, Excel, PowerPoint).

Esta tecnologia tem evoluído muito e, na medida em que as páginas web se tornam mais dinâmicas, os leitores tornam-se mais sofisticados.

É possível encontrar no mercado várias opções de leitor de tela, tanto pagos como gratuitos. Para maiores informações, contate os fabricantes ou os representantes de venda no Brasil. Faça um plano para escolher, adquirir e obter suporte e treinamento do produto que melhor atenda às necessidades da empresa.

Complexidade de uso:

Do ponto de vista do usuário, a maior barreira no uso de um leitor de tela é a familiaridade com o uso do teclado e o número desencorajador de chaves de combinações de teclas estabelecido por cada tipo de leitor. Uma vez dominado isto, a pessoa com deficiência visual encontra relativa facilidade para utilizar o computador.

Para fazer frente ao crescente número de recursos disponíveis no computador, os leitores de tela utilizam com freqüência combinações de teclas que incluem o teclado numérico. Por isto, quando o leitor de tela é utilizado em laptops, conectar um teclado numérico adicional ou teclado USB de desktop pode ser muito útil. Fones de ouvido também são muito bem vindos quando o ambiente de trabalho é compartilhado por mais pessoas.

Quanto mais experiente e ágil for o usuário no uso do leitor de tela, mais facilidade ele encontrará para interagir com o computador e navegar pela Internet.

Suporte técnico:

Os leitores estão se tornando cada vez mais fáceis de serem instalados e mantidos em PCs.

Pode existir alguma incompatibilidade tecnológica com relação ao driver de vídeo, mas não haverá problemas de instalações se forem tomadas as devidas precauções ao se atualizar versões, tanto do sistema operacional quanto do próprio leitor.

Leitores podem ser instalados e mantidos pelo pessoal de TI, pois alguns ajustes simples no computador podem afetar seriamente o uso do leitor. Para testar as funcionalidades do leitor de tela e verificar se está pronto para o uso, a equipe de TI pode contar com uma “receita” de instruções básicas e executá-la sempre que fizer alterações de hardware e software nos equipamentos da empresa aos quais a pessoa com deficiência tem acesso.

Não se deve esquecer que o ambiente (ou laboratório) onde estiver o computador a ser usado pela pessoa com deficiência visual deve ser hospitaleiro a cães guias e bengalas.

Treinamento:

É necessário treinamento completo para o uso de leitores de tela para usuários iniciantes na tecnologia, incluindo uso de teclado.

Este treinamento pode ser feito com recursos humanos da própria empresa, com o fabricante do software, ou ainda através de parcerias com entidades dedicadas à inclusão da pessoa com deficiência visual.

Mesmo pessoas muito familiarizadas com este tipo de tecnologia podem precisar de treinamento com um especialista para se atualizar em relação às novas versões. Portanto, é conveniente que a empresa mantenha algum contrato de suporte e treinamento com o fabricante.

1.2 - OCR: Reconhecimento ótico de caracteres

Uma das maiores barreiras para o deficiente visual é a impossibilidade ou dificuldade de ler textos impressos. Porém, se os textos forem convertidos para um formato digital, eles podem ser lidos facilmente com o uso de softwares leitores de tela. Podem ainda ser ampliados e adaptados segundo as necessidades do usuário com relação a tamanho de letras, cores, espaçamento entre linhas, etc.

Usualmente, para se digitalizar um texto impresso, seja ele um jornal, livro, folheto, comunicado etc. usa-se um scanner. Entretanto, um scanner é um equipamento que cria uma imagem estática do documento impresso, mesmo se o conteúdo for um texto. Desta forma o deficiente visual, que utiliza o leitor de tela, não tem acesso às informações. É necessário ainda que outro software (conhecido como OCR) transforme o documento digitalizado em um arquivo texto ou de dados dinâmico, passível de ser editado ou pesquisado.

Dependendo da qualidade do software OCR adquirido, esta conversão será mais ou menos apurada sendo necessário corrigir alguns erros de reconhecimento de caracteres. Porém, já existem no mercado produtos cuja assertividade entre os caracteres do texto original e caracteres do texto scaneado chega a 99%. De maneira geral, os OCRs que cometem o menor número de erros são fabricados por empresas especializadas no desenho de produtos para usuários com deficiência visual.

Softwares do tipo OCR, em geral, têm opção para converter documentos impressos em vários formatos como textos e pdf, e podem ser salvos em formatos do tipo Word, Power Point, Excel, etc.

Existem empresas no mercado que efetuam serviços de digitalização de documentos. Porém, é importante que a pessoa com deficiência visual saiba como criá-los independentemente. Para isto basta que a organização disponibilize um scanner e um software OCR para uso da pessoa com deficiência visual, aumentando, desse modo, o seu rendimento e a sua inclusão no ambiente de trabalho.

No mercado, existem softwares desse tipo gratuitos e pagos.

Complexidade de uso:

Esta tecnologia não é muito complexa. Usuários mais sofisticados podem fazer uso de inúmeras opções de ajuste.

O maior problema é que alguns OCRs exigem que o usuário selecione aquilo que se quer digitalizar antes de realizar a digitalização do documento, o que praticamente inviabiliza o uso autônomo do software pelo deficiente visual. Este problema pode ser resolvido com a ajuda de outra pessoa como, por exemplo, um estagiário ou secretária.

Suporte técnico:

OCR é um software que pode ser executado em um PC sem maiores complicações. Não é preciso manter um responsável especializado para instalar e manter esta tecnologia.

Treinamento:

Alguém do suporte técnico deve ser capaz de prover um treinamento neste tipo de tecnologia, assumindo que pessoa com deficiência tenha baixo nível de competência no uso do computador, e que cada scanner e cada OCR tenham suas características próprias de funcionamento e configuração.

1.3 - Ampliadores de Tela

Pessoas com baixa visão, normalmente, precisam ampliar a tela para poder ler o seu conteúdo. Entretanto, alguns tipos de conteúdos são difíceis de interpretar quando ampliados, como por exemplo imagens de texto, que podem se tornar quadriculado quando ampliados. Outra dificuldade encontrada por pessoas daltônicas e de baixa visão, está relacionada com a questão das cores e contrastes.

Além de tecnologias como lupas manuais e eletrônicas, a pessoa com baixa visão pode contar com recursos de software para visualizar melhor o conteúdo da tela do computador. Muitos sistemas operacionais (como o Windows e o Linux) possuem recursos de ampliação de letras e troca de cores e contrastes, porém eles nem sempre são suficientes.

Existem programas específicos, conhecidos como “Ampliadores de Tela”, que possuem mais recursos para atender às necessidades de pessoas com baixa visão. Estes programas ampliam o conteúdo da tela podendo expandir a imagem do computador como se esta excedesse os limites do monitor.

O grau de ampliação é ajustável podendo-se ampliar várias vezes a imagem original. Geralmente disponibilizam uma variedade de janelas de zoom que permitem visualizar a tela do computador por partes, o que é essencial quando se precisa navegar em telas complexas. Tanto as cores quanto os contrastes podem ser mudados para uma combinação pré-definida, ou customizados pelo usuário manualmente de modo a adaptar a tela de acordo com as suas necessidades.

Complexidade de uso:

Os softwares voltados à ampliação de tela , quando usados no modo básico, isto é, aumentando a tela em 2 ou 3 vezes, são de fácil uso.

Se o usuário precisar de suporte adicional, como ajustar cores e contrastes, o programa fica mais complexo, mas os limites de ajuste são muito manuseáveis, e uma rápida leitura nos arquivos de ajuda geralmente é suficiente para o usuário.

Suporte técnico:

Ampliadores de tela são simples de serem instalados e mantidos no PC, mas às vezes podem ocorrer algumas pequenas incompatibilidades se o PC hospedeiro não estiver atualizado com o seu último driver de vídeo.

Os ampliadores de tela podem ser instalados e mantidos pelo pessoal de TI da organização.

Treinamento:

As manifestações de baixa visão podem variar enormemente, ou seja, uma cor ou contraste que é distinto e claro para uma pessoa com baixa visão pode ser quase invisível para outra. Por isso, ajudar o usuário a ajustar o programa às suas necessidades e tirar o maior proveito da tecnologia é mais importante do que treiná-lo.

A pessoa com deficiência pode até saber que precisa de um ampliador, mas exatamente quais os ajustes de tela atendem às suas necessidades ela só saberá quando utilizar o programa juntamente com alguém que lhe dê algum suporte no uso.

Normalmente, o usuário e alguém familiarizado com os controles da tecnologia podem ajustar o software. Porém, em novos ambientes (na web, por exemplo), o usuário pode precisar de ajuda adicional.

Alguns usuários com baixa visão utilizam simultaneamente leitores de tela e ampliadores.

2 - Tecnologias assistivas para pessoas com deficiência motora

A maior dificuldade para a pessoa com deficiência motora (nos membros superiores) utilizar o computador relaciona-se ao uso do teclado ou do mouse. Muitas vezes um pequeno suporte para segurar os braços, mãos ou dedos, pode ser suficiente para acomodar este tipo de usuário.

Existe no mercado uma grande variedade de opções de tecnologias assistivas para contornar esses problemas. Porém, as tecnologias devem ser selecionadas com muito critério, pois uma decisão inadequada pode agravar ou provocar outros danos. Em alguns casos, um terapeuta ou médico pode especificar exatamente qual a acomodação necessária.

Não existe teclado ou mouse acessível, mas teclados e mouses especializados. Por este motivo, não se recomenda que a organização adquira uma série deles. É melhor comprar segundo as necessidades apresentadas pela pessoa que irá utilizá-los.

Com relação aos mouses, existem no mercado mouses com botões que simulam as funcionalidades de um mouse tradicional, mouses controlados apenas com movimentos da cabeça, mouses por toque, mouses de esfera (TrackBall), entre outros.

No mercado, pode-se encontrar diferentes adaptações para teclado, que vão do teclado adaptado a colméia para teclado (chapa transparente com furos coincidentes com as teclas para evitar o acionamento involuntário de mais de uma tecla), passando pelo apontador (tipo capacete). Além disso, adaptações simples com objetos de uso diário podem ser utilizadas: mouse pad com limitador, apontador adaptado com lápis e borracha etc. É importante definir essas condutas sempre com a ajuda de um profissional da área, como o Terapeuta Ocupacional juntamente com a pessoa que vai utilizar os equipamentos.

Existem também programas, gratuitos e pagos, denominados “teclados virtuais”, que simulam o teclado na tela, podendo o usuário fazer uso dele através de um mouse.

Outro problema relevante na acomodação das pessoas com deficiência motora está relacionado com a ergonometria no uso do computador, como altura, a disposição e o espaçamento de mesas, cadeiras, teclados, etc. Seguir as melhores práticas e os princípios de ergonometria pode resultar em um ambiente de trabalho saudável e produtivo.

Para dificuldade motora extrema, podem ser considerados programas de reconhecimento de voz. Esta tecnologia vem sendo desenvolvida há anos, mas para o mercado brasileiro, as soluções para usar o computador e navegar na Internet ainda deixam a desejar.

Complexidade de uso:

Muitas das acomodações de hardware são de fácil uso e o usuário as entende bem. A maioria dos teclados e mouses alternativos é de uso óbvio.

Suporte técnico:

São fáceis de serem instalados e mantidos. Alguns acompanham softwares de instalação.

Treinamento:

Para a maioria das acomodações de teclado e mouse, o treinamento é fácil e evidente..

3 - Tecnologias assistivas para pessoas com deficiência auditiva

Pessoas com deficiência auditiva, diferentemente das outras acomodações, não encontram grande dificuldade no uso das rotinas básicas do computador, já que os sons do sistema operacional (como sinalização de um erro) podem facilmente ser transformados em sinais visuais.

Entretanto, a web gera cada vez mais conteúdo sonoro que não pode ser acessado pelo deficiente auditivo, a menos que sejam incluídos textos alternativos a cada conteúdo sonoro apresentado. Este trabalho deve ser efetuado por quem disponibiliza o site, não tendo a pessoa com deficiência auditiva qualquer recurso para ultrapassar esta barreira.

4 - Tecnologias assistivas para pessoas com deficiência intelectual e múltipla

As necessidades de acomodação de pessoas com deficiência intelectual e múltipla podem variar muito. As diversas soluções apresentadas anteriormente podem ser úteis também para pessoas com essas dificuldades. Em alguns casos pode ser necessário planejar uma combinação de soluções, de modo que as tecnologias sejam utilizadas de maneira harmoniosa.

O uso da internet e intranet pelas pessoas com deficiência

A web está cada vez mais dinâmica com aplicações mais complexas. Com a popularidade do uso da banda larga, cada vez mais se encontra na web elementos de animação, vídeo, som e outras formas de interação.

As empresas, por sua vez, também estão fazendo uso desses recursos nas suas Intranets como ferramenta de comunicação interna e para a execução de todo tipo de trabalho.

Entretanto, se as páginas web não forem acessíveis, profissionais com deficiência poderão ter dificuldade de acessá-las e talvez ficar impossibilitados de exercer o seu trabalho.

Mesmo utilizando bem as tecnologias assistivas apresentadas anteriormente, pessoas com deficiência podem encontrar inúmeras barreiras ao navegar e usar a Internet e Intranet se as páginas não forem desenvolvidas com foco na acessibilidade.

Por isso, é extremamente importante que web-designers, desenvolvedores e projetistas de web sites da empresa conheçam e apliquem as recomendações internacionais de acessibilidade ao desenvolverem suas páginas web.

Essa prática não será somente útil para possibilitar o uso da Intranet pelos profissionais com deficiência da empresa, mas aplicada às páginas web voltadas ao público externo poderá conquistar mais clientes e colaborar com uma boa imagem da empresa.

São Paulo (SP), Março de 2009

E-mail de contato: lucygru@gmail.com

 

VOLTAR