Acessibilidade digital no ensino superior - Destaques da 15ª Conferência da AHG - Colorado - EUA​

Por Lucy Gruenwald 30/11/2012

Acompanhamos a conferência "Accessing Higher Ground" de 2012.

Conhecida como AHG, a conferência acontece anualmente em Westiminster - Colorado, sempre no mes de Novembro. É organizada pela Universidade do Coloradoem Bouldere e tem como objetivo prioritário reunisr profissionais ligados aos serviços de atendimento aos alunos com deficiência das instituições de ensino superior, para troca de experiências.

Os participantes são, em geral, responsáveis pelas definições de politicas e práticas de acessibilidade, especialistas em tecnologias assistivas e acessibilidade na web, produtores de material instrucional, consultores, professores, coordenadores, e representantes de empresas fornecedoras de soluções de acessibilidade.

Participando virtualmente da conferência
Este ano a AHG transmitiu, ao vivo, várias palestras durante os cinco dias de conferência, todas com captions (ou seja legendas sincronizadas). Foram oferecidas opções de inscrição “à la carte”, ou seja, o participante poderia se inscrever em uma única palestra, em todas as palestras transmitidas em um dia, ou em conjuntos de palestras selecionadas nos 5 dias do evento. A adição deste novo formato foi extremamente útil, por evitar custos extras com viagens e hospedagem. Mais informações sobre as inscrições no site da AHG.

Outra vantagem da participação online são os vídeos das palestras que serão disponibilizados para os participantes durante um mês, juntamente com os captions feitos no momento da apresentação para atender os deficientes auditivos. Os captions podem se tornar um recurso importante para participantes que não tem o inglês como sua primeira língua.

Alguns destaques da AHG de 2012:

Legendas em vídeos de uso acadêmico
Um tema muito discutido foi a questão das transcrições e legendas sincronizadas em vídeos utilizados em aulas, sejam elas presenciais, online ou no ensino a distância. Sem legendas, os alunos surdos ficam impossibilitados de acompanhar os cursos de forma independente e em condições de igualdade com os demais.

Incluir legendas é trabalhoso e envolve custos, por isso as universidades estão experimentando diferentes abordagens para atender o requisito da lei americana que definiu que esta responsabilidade que cabe às instituições de ensino. Algumas universidades já têm como política não comprar vídeos se estes não possuírem legendas/captions.

O departamento de Terapia Ocupacional da Colorado State University, apresentou a palestra “Captions em vídeos: Faça você Mesmo”. Com muitos vídeos em uso, pouca verba disponível, mas animados com a evolução da tecnologia nos últimos anos, um grupo de professores iniciou um projeto piloto para legendar os vídeos no próprio departamento. Contrataram um estudante (10 horas semanais) que utiliza o software Camtasia para o trabalho de transcrição e legendagem. Os vídeos são disponibilizados através do sistema de comunicação da Universidade (Echo 360). Segundo os apresentadores, a qualidade do trabalho está sendo bastante elogiada e os prazos de entrega razoáveis para a demanda local. O maior desafio, dizem, é digitalizar vídeos a partir de fontes tão diversas como fitas VHS, DVDs comerciais, DVDs caseiros, Youtube entre outros. Problemas como péssima qualidade de som e direitos autorais são apontados como as maiores dificuldades.

A empresa 3PlayMedia apresentou uma nova abordagem de interação com os vídeos: a transcrição interativa. Uma transcrição é o conteúdo do vídeo em formato textual. Na transcrição interativa, o texto obtido a partir de um software reconhecedor de voz, é apresentado na página web juntamente com o vídeo. Um usuário pode, então, fazer pesquisas e selecionar trechos deste texto e o sistema irá posicionar o vídeo exatamente no ponto correspondente. Um exemplo da transcrição interativa pode ser visto em uma aula do MIT (Massachusetts Institute of Technology) no site da empresa.

Essa abordagem faz da transcrição um recurso muito importante, não só para quem não pode ouvir o vídeo, mas tambem professores de idiomas, pesquisadores, alunos sem deficiência e outros profissionais que possam ter interesse em interagir com esse material. Como ressaltou o apresentador, quanto mais utilidades forem encontradas para as transcrições, mais os autores estarão interessados em disponibilizá-las. Os deficientes auditivos agradecem!

A acessibilidade em sites produzidos com o WordPress

As Universidades, através de seus diversos departamentos, produzem centenas de páginas web para sua comunicação interna e externa. Na maioria das vezes, os departamentos não podem contar com uma equipe de profissionais qualificados para desenvolvimento das páginas e nem possuem verbas para pagar licenças caras de softwares. Por isso o WordPress, software (CMS) livre e gratuito, tem sido uma opção interessante para diversas Universidades.

Joseph Dolson, desenvolvedor de rotinas (plug-ins) para o WordPress, abordou os diversos problemas de acessibilidade encontrados neste software e indicou alguns caminhos para minimizá-los. O grande problema, segundo Dolson, são os componentes do WordPress (temas e plug-ins) desenvolvidos por centenas de desenvolvedores voluntários sem qualquer conhecimento de acessibilidade na web. São mais de 22.000 plug-ins e é impossível analisá-los para verificar se são ou não acessíveis.

A boa notícia é que muitos dos problemas podem ser resolvidos com o conhecimento adequado. Dolson comentou que a próxima versão do WordPress (3.5), com previsão de lançamento para dezembro/2012, tem enormes melhorias com relação à acessibilidade, incluindo a área de administração. A acessibilidade está no momento em pauta na comunidade de desenvolvedores do WordPress.

Doson, disponibilizou um plug-in que corrige uma série de problemas comuns de acessibilidade encontrados nos temas do WordPress. Alguns temas acessíveis podem ser encontrados no site WP Accessible. Doson insiste para que os bugs de acessibilidade do sistema sejam reportados no wiki construído para isto, ou diretamente para Dolson a ele no seu site, deste modo a acessibilidade do WordPress poderá ser alcançada mais rapidamente.

A acessibilidade nos aplicativos do Google

Muitas Universidades utilizam os aplicativos do Google (Calendário, Docs, Gmail etc) como o seu sistema de comunicação (alunos, professores e administração), por isto a acessibilidade nestes produtos é uma grande preocupação. Em março de 2011 a National Federation of the Blind abriu processo contra New York University por esta ter adotado produtos do Google não acessíveis e, portanto, ter violado a lei americana (Section 504).

Para cobrar do Google um esforço maior com relação à acessibilidade de seus produtos, a ATHEN (Access Technology Higher Education Network) constituiu um grupo de trabalho, em março de 2012, responsável por fazer testes com diversas tecnologias assistivas e reportar os problemas ao Google. Os aplicativos analisados foram Docs, Gmail e Calendar.

Graig Kraus, líder do grupo, apresentou os resultados do trabalho na AHG. Relatou que o Google já implementou várias melhorias, mas ainda existem diversos problemas, como por exemplo: inúmeros atalhos que inclusive conflitam com atalhos das tecnologias assistivas, problemas de foco quando se usa teclado, implementações inconsistentes entre navegadores, não atendimento a diversos padrões de acessibilidade (textos alternativos, cabeçalhos em tabelas, etc).

A metodologia dos testes, as tecnologias assistivas utilizadas e os resultados podem ser encontrados na apresentação disponibilizada no site da AHG. Quem encontrar problemas de acessibilidade nos produtos Google são encorajadas a reportar o problema na página que o Google disponibilizou para isto.

Acessibilidade em documentos PDF
Outro tema muito abordado na conferência foi a acessibilidade em documentos, especialmente aqueles no formato PDF. O numero de arquivos PDF disponibilizados em sites vem aumentando enormemente, e por isso a preocupação com a sua acessibilidade vem atraindo grande interesse.

Existem vários modos de se gerar arquivos PDF, que podem ser totalmente inacessíveis (imagem) ou bastante acessíveis (se contiverem marcações adequadas – tagged PDF). Terrill Thompson, da Universidade de Washington, apresentou sua pesquisa que avaliou a acessibilidade em 3.251sites de instituições de ensino dos EUA. Neste trabalho foram analisados 28.395 arquivos PDF e constatou-se que 33,8% dos arquivos são acessíveis (tagged PDF). Segundo Thompson, acessibilizar PDF nem sempre é uma tarefa simples, por isso é importante que se faça um esforço maior de conscientização para que eles sejam marcados corretamente e acessíveis.

Outros temas abordados na conferência: acessibilidade em sites, produção de material alternativo, E-books, tecnologias assistivas em geral, acessibilidade no campis, entre outros. Sites referenciados no texto:
AHG: http://accessinghigherground.org/virtualAHG2012.html
Aula do MIT com transcrição interativa: http://interactive.3playmedia.com/mitocw/6.00SC
Plug-in que corrige problemas de acessibilidade do WordPress: http://wordpress.org/extend/plugins/wp-accessibility/​​
Temas acessíveis do WordPress: http://wp-accessible.org/themes/​​
Sites para reportar erros de acessibilidade do WordPress: http://core.trac.wordpress.org/wiki ou http://joedolson.com​
Apresentação sobre acessibilidade das APPs Google:
http://accessinghigherground.org/wp/show1prop4grid.php?vpropid=221&vday=Wednesday&vdis=grid
Section 504: http://www.ada.gov/cguide.htm#anchor65610
Para reportar problemas de acessibilidade nas Apps do Google:
https://services.google.com/fb/forms/accessibilityfeedback/

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