Orbit Reader 20: a linha braille de baixo custo e alta qualidade

Lucy Gruenwald e Cristiana Cerchiari (abril/2018)

Em nosso vídeo do YouTube Linha Braille: saiba como usar  apresentamos  uma visão geral da tecnologia conhecida como display braile: seu funcionamento, utilização e considerações a serem feitas antes de adquiri-la.

Neste trabalho comentaremos especificamente a linha braile Orbit Reader 20, ou simplesmente Orbit 20, como é conhecida no Brasil. O equipamento foi lançado no mercado americano em 2016 e no Brasil em 2017.

Como surgiu a Orbit 20?

Há muito a comunidade internacional,  especialmente educadores e pessoas cegas, aguardava o lançamento de um equipamento de leitura braile que fosse simples de usar, fácil de transportar, e com custo drasticamente menor do que as demais linhas braille  de ponta do mercado.

Partindo desses objetivos e reconhecendo a importância da alfabetização braille, e também motivados pelos avanços da tecnologia  de “produção”  dos pontos braille, um grupo de instituições estrangeiras -incluindo as norte-americanas American Printing House For the Blind, National Federation for the blind e a Perkins School for The Blind - ligadas à deficiência visual uniram-se em um consórcio global chamado Transforming Braille Group (TBG), a fim de investir em pesquisa e desenvolvimento de um produto que tivesse as características mencionadas anteriormente. O objetivo não era concorrer com as demais linhas braille de mercado, mas sim impulsionar a alfabetização e fazer com que mais pessoas cegas em todo o mundo tivessem acesso a esse produto.

Características físicas da Orbit 20

Teclas de controle

 

 

 

Teclado braile

 

20 Células braille para saída de dados

Figura 1: Destaques da Orbit 20: teclas de controle, teclado braille e as 20 celas braille

 

A Orbit 20 combina simplicidade, funcionalidade e conectividade.  Graças a uma nova tecnologia o equipamento  oferece pontos  braille de alta qualidade em um dispositivo portátil, leve e compacto: mede 17 cm de comprimento, pesa 450g  e contém 20 celas braille de oito pontos (os 2 pontos adicionais – 7 e 8- são utilizados para indicar letras maiúsculas e números).  

Essa nova tecnologia das celas braille oferece ainda outra vantagem, em comparação às linhas do mercado: permite que o usuário coloque mais pressão ao ler os pontos braille sem correr o risco de “apagar” os pontos, o que pode ser uma vantagem para iniciantes no braille ou para usuários com algum grau de neuropatia.

 

Características funcionais

A Orbit 20 foi desenvolvida com o intuito de ser um sistema de leitura braile de uso autônomo, ou seja, sem conexão com outros dispositivos.  Porém,  no projeto final, além da possibilidade de leitura foram incluídos outros recursos como, por exemplo, um processador de texto simples que possibilita criar arquivos, e um gerenciador de arquivos que permite copiá-los, remove-los ou renomeá-los. 

Para qualquer outra tarefa mais elaborada o usuário pode conectar a Orbit 20 a um host (PC, tablet ou celular) e utilizá-la como um teclado e/ou display braille . O Sistema Operacional do host pode ser qualquer um que inclua um leitor de tela com suporte braille, como Windows, Mac, iOs ou Android.  A conexão pode ser feita através de Bluetooth ou USB.

Para baixar o custo da Orbit 20, foi preciso fazer algumas simplificações, como eliminar as chamadas teclas de rotação de cursor, botões associados às celas individualmente às celas braille.. Se uma linha braile tem 40 celas, existem 40 teclas de rotação de cursor correspondentes. Essas teclas agilizam a edição de textos, ao permitir que o cursor “pule” rapidamente para, digamos, o meio da linha; funcionalidade  que pode ser bastante  útil para pessoas cegas que trabalham com revisão de texto, por exemplo.

 

Sugestões de uso da linha braile Orbit 20:

 

1) Na área da Educação:

a. Introduzindo tecnologia

Muitos estudantes cegos e algumas pessoas que perdem a visão ao longo da vida aprendem braille. Ser ágil ao escrever e ler nesse sistema é fundamental, porque à medida que o aluno avança em seus estudos a demanda de leitura e tarefas escritas aumentam. Essa competência será decisiva na vida profissional, no lazer e na aquisição de cultura de crianças, adolescentes e adultos. 

Portanto, adquirir habilidade em braille deve ser um objetivo a ser atingido o quanto antes na educação de crianças cegas, e a linha braille de baixo custo pode ser uma ferramenta interessante. Crianças, mesmo as bem novas, podem ter um contato inicial com tecnologias assistivas se esse tipo de linha braille simplificada for inserida de alguma forma em cursos de braille.

Com custo equivalente às máquinas de escrever Perkins tradicionais, a Orbit 20 tem ainda outras vantagens: é mais leve (portanto, mais fácil de transportar entre escola-casa); mais silenciosa; menos fatigante (para escrever uma letra basta um leve toque) ; mais econômica (não há gastos extras com papel de gramatura elevada),  além de estar muito mais próxima do mundo virtual que já faz parte do cotidiano de crianças, adolescentes  e adultos.

O vídeo (em inglês) “Layla: 4 Year Old Learning VoiceOver and Braille Video”  apresenta a uma experiência interessante com uma criança da pré-escola de 4 anos, utilizando iPad,  linha braile e app com atividades educacionais para o ensino do braille.

Figura 2: Layla aprendendo braille como a orbit 20 e app educativo  em um iPad

 

b. A Orbit 20 como apoio escolar:

Como o equipamento possui entrada para cartão SD, um aluno pode, por exemplo, utilizá-la de forma independente, isto é, sem conexão com outros equipamentos ou a internet, para tomar notas em sala de aula, escrever textos, fazer provas, ler livros etc. Pode também gerenciar e transferir os arquivos  da linha para o computador e vice-versa. Além disso, cada professor  consegue  disponibilizar um cartão de memória por aluno, o que facilita a disponibilização de arquivos “individualizados” para alunos distintos.

A Orbit 20 pode ser um instrumento para que professores, colegas de classe do aluno cego, amigos e familiares que não sabem braille possam acompanhar o que está sendo escrito em braille. Basta conectar a linha com um host (PC, tablete ou celular), e o texto que está sendo digitado no teclado da  Orbit será apresentado na tela do host imediatamente e vice-versa.  Também é possível digitar o texto usando o teclado do host, e ele aparecerá na Orbit 20 em braile. 

Importante lembrar de configurar corretamente o leitor de tela para que a linha braille seja reconhecida: indicar o tipo da  linha e qual o código braille que será usado ( de 6 ou 8 pontos).  A figura 3 mostra a tela de configuração no NVDA.

 

 

Figura 3: Tela dos parâmetros do NVDA para linha braille Orbit

 

2. Usando a linha braille para navegar e interagir com telas de toque (touch) 

Para navegar e interagir com equipamentos que possuam tela touch, como tablets e celulares, pessoas que não enxergam utilizam gestos específicos e um programa que lê e fala o conteúdo da tela (leitor de tela) – leia nosso texto Guias de Referência Ilustrada e Rápida dos gestos utilizados por cegos nos sistemas iOS e Android”

Utilizar a linha braille como teclado do dispositivo móvel pode ser uma boa opção para o usuário que, por qualquer motivo, não consiga executar os gestos de controle, seja por não lembrá-los, ou por ter dificuldade em executar comandos como arrastar com dois dedos, e  outros. 

A navegação na tela é feita através das teclas de controle da linha braille,  e a interação  com os equipamentos móveis é feita através dos leitores de tela, como o VoiceOver ou Talkback, que são os responsáveis por  fazer a tradução para o braille.  A voz do leitor pode ser ativada ou não, e a conexão é feita através de Bluetooth. O software leitor de tela, porém, deve permanecer ativo o tempo todo.

 

3. A linha braile como dispositivo de entrada e saída do desktop/notebook

Do mesmo modo que a linha braille pode ser utilizada como um teclado auxiliar  em equipamentos móveis (como descrito no item anterior) , pode-se  utiliza-la conectada a  computadores (desktop ou notebooks) para entrada de dados e navegação (teclado braile), e saída dos dados (o conteúdo da tela é reproduzido, linha a linha, nos pinos que sobem e descem da linha braille).  A conexão é feita via entrada USB ou Bluetooth.

Essa forma de uso é uma boa opção para pessoas surdocegas que não utilizam leitores de tela.

 

4. Leitura de livros digitais

Livros são arquivos e, portanto,  é possível carrega-los no cartão SD para serem lidos através da Orbit 20 sem conexão com outros dispositivos.  Se o formato do livro for texto (.txt), pode-se fazer download do livro diretamente do computador (por exemplo de uma biblioteca digital). Caso contrário, é preciso primeiro converte-lo para este formato no computador e depois copiá-lo para o cartão SD. Uma boa fonte para obter arquivos nesse formato é o site do Instituto Benjamin Constant (IBC).

Se a Orbit 20 estiver contectada  a um host (computador, tablet ou celular) , a leitura pode ser feita através de aplicativos como Kindle, iBooks , e outros ( leia nosso texto Entendendo e-books e sua acessibilidade ).  

Dependendo do caminho escolhido – leitura autônoma ou leitura com conexão a um host - o usuário tem vários recursos para  leitura, marcação e navegação no texto, como por exemplo, ir para próxima linha/parágrafo/palavra ou caracteres e  marcar o ponto onde a leitura foi interrompida,  para ser reiniciada no mesmo local quando a leitura for retomada.

Outra vantagem da leitura braille digital é a possibilidade  de se fazer anotações, copiar/colar textos à vontade, sem ter que digitar o conteúdo todo novamente, como ocorre quando escrevemos em braille no papel.

 

CONCLUINDO

Existem várias outras situações onde o uso da linha braille de baixo custo pode ser útil. No ambiente profissional, ter uma linha simples de uso independente, para tomar notas em reuniões, ou dar suporte ao palestrante cego na leitura e acionamento de slides pode ser bastante prático e eficiente.

As bibliotecas, sejam escolares ou púbicas, também podem tirar vantagem do baixo custo da   Orbit 20 e adicioná-las ao seu conjunto de tecnologias assistivas.  Com esse recurso poderão  oferecer seus livros, revistas e documentos em formato braille eletrônico a seus usuários cegos. Lembramos que, para ter acesso a gráficos, mapas e desenhos, as pessoas cegas dependem de textos alternativos  descritivos  (associados digitalmente às imagens), ou de outras tecnologias assistivas, tais como impressoras 3D e impressão braille.

O governo brasileiro, que através de seu Programa Nacional do Livro Didático (PNLD),   distribui livros em braille em papel os  alunos cegos matriculados nos nove anos do Ensino Fundamental nas escolas públicas, pode rever seus projetos de implantação de salas multifuncionais e considerar a utilização da linha braille de baixo custo, visto que a tendência é que esse dispositivo se torne cada vez mais popular, o que  pode  significar redução de custos de produção e do tempo de entrega  do material em formato acessível aos estudantes.

A Orbit 20, oferecida pela Tecnovisão, vem com manual em português no cartão SD. A empresa oferece treinamento e assistência técnica no Brasil, diferencial importante  a ser considerado na hora de decidir-se pela aquisição.  

Esperamos que as sugestões que apresentamos nesse artigo, de uso da linha braille de baixo custo,  inspire outras aplicações, que o equipamento  seja cada vez mais utilizado para que seu preço possa ser reduzido,  que a crise de alfabetização de cidadãos cegos diminua drasticamente,  e que brasileiros de todas as idades tenham mais acesso ao livro e à leitura.

 

Referências:

  1. “Transforming Braille: Orbit Reader 20 Details”: http://www.transformingbraille.org/orbit-reader-20-details/

  2. Linha Braille: saiba como usar:   https://www.youtube.com/watch?v=dcLcvV9R-FA

  3. “Layla: 4 year Old learning VoiceOver and Braille video”:  http://www.perkinselearning.org/technology/posts/layla-4-year-old-learning-voiceover-and-braille-video

  4. Entendendo e-books e sua acessibilidade: http://www.lbgacessibilidade.com.br/artigos.php?codigo=112

  5. Review: Linha braille Orbit Reader 20: http://www.blogtecnovisao.com/2017/08/review-linha-braille-orbit-reader-20/
  6. Orbit Reader 20 – User Guide: http://tech.aph.org/or20/

  7. Apresentação da linha Braille Orbit 20 (vídeo): . https://www.youtube.com/watch?v=qGuSJ_XT72I

  8. Tecnologia da informação e Sistema Braille: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa?: http://lbgacessibilidade.com.br/artigos.php?codigo=95

  9. Guias de Referência Ilustrada e Rápida dos gestos utilizados por cegos nos sistemas iOS e Android: http://lbgacessibilidade.com.br/artigos.php?codigo=102

 

 

 

 

 

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